Estão vendendo. Estão vendendo e a gente está comprando. E não tá barato não. Custa o nosso sorriso, custa um final de tarde na praia, custa uma música não ouvida, custa aquele filme que você quer ver há meses e nunca consegue. Custa aquele beijo gostoso que a gente quer dar em alguém, mas nunca dá direito porque tá preocupado com o relatório, o projeto, a reunião. Custa aquele sorriso que a gente mal leu porque tinha dez minutos para estar em algum lugar convencional. Custa a mágoa de alguém que amamos, causada pelo nosso cansaço de outras coisas menos importantes. A gente é jovem, cheio de idéias, planos, sonhos, ideologias. Daí vem a faculdade, a gente começa a achar que tá crescendo, e então a coisa mais legal que a gente consegue falar é de vestido, futebol, política, tecnologia, e facebook. Começamos a achar estranho não abrir mão de duas horas de alegria para poder estudar, trabalhar, ou terminar de fazer o relatório pro dia seguinte. E a gente se diminui. Vai ficando pequeno, pequeno. Acreditando que é só final de ano, e que quando chegar as férias volta tudo ao normal. Não volta. Uma vez diminuídos, perdemos uma parcela importante da grandiosidade do que éramos. E então não vamos nem mesmo achar estranho tudo isso. Ficando mais, e mais, e mais alienados. E então achamos que isso é amadurecer. Eles venderam a idéia de que crescer é esquecer os sonhos, da importância das pessoas, dos sentimentos, das essências, da intensidade em tudo. Fizeram a gente pensar que isso é imaturidade. Eu sei, eu sei que você não deve estar com cabeça pra isso. Mas eu preciso falar. E não te culpo. Só estou odiando tudo isso. Olha só como a gente tá indo, indo, e ao mesmo tempo, ficando; se deixando levar junto com a maré, deixando virar só mais água aquilo que antes era diferente do resto do mar. Tá custando, e a gente tá pagando sem perceber. Descartamos oportunidades de colher flores em uma tarde qualquer, ou de simplesmente fazer greve de estudo pra ficar tudo bem. E a responsabilidade pesa tanto que a gente se esquece de ser responsável por a gente mesmo. Não é estranho? E a gente vai, vai, vai, mas só fica; se anulando, se sumindo. No fim, a gente vai virar uma escuridão de boas notas, de prestígio profissional, de carros e casas. E cadê a claridade dos sorrisos? Mas tudo isso a gente sabe, e em vez de guardar, a gente vai amortecendo, amortecendo, mortecendo; e no lugar de dizer vivendo, deveríamos dizer morrendo. A gente esquece. Esquece que o que importa são as pessoas, as essências. Uma criança cheia de pureza na rua, uma borboleta diferente, um velhinho que quer atravessar a rua, mas tem medo desse mundo selvagem que virou tudo. Lagar, e falar: "Quer saber? Hoje eu vou sentar minha bunda magra nesse sofá, fazer uma pipoca e um brigadeiro e ver sozinha esse besteirol que to querendo ver faz tempo, e dai que é terça-feira ainda?". Pra você ver...tô começando a achar normal perder tudo isso e não ganhar nada em troca. Tava começando a me achar imbecil por não estar batalhando pra ganhar dez mil por mês, porque ouvimos na faculdade que nunca vamos ser ninguém não abdicarmos das coisas que nos fazem bem. Mas hoje eu sei: eu tô no caminho. Onde está a vida dos que começaram comigo? Cheios de energia? Estão doentes. Impetrados na única idéia de acumular, e mesmo assim, continuar: vazio. Cada originalidade que conquistamos com ferrenhez está sendo aniquilada para virarmos padrão de um mundo sem moral. Sai todo mundo igual. Diferencial? Você sabe falar francês e todo mundo fala inglês? Diferencial é saber viver e não passar pela vida pra só chegar no fim do caminho. Diferencial é não ter fim. Os jornais anunciam a ironia: "Falta tempo pra viver melhor.". Falta tempo pra viver melhor? Devíamos dedicar cada pedaço da nossa vida para vivermos melhor, pois é a isso que viemos. Viemos com um objetivo e o jogamos na primeira justificativa que nos dão para deixarmos ele para depois. Primeiro uma boa faculdade, agora um emprego, agora um carro, agora uma casa, agora uma família. E o agora "nós"? O que é isso? Temos nossos vinte e poucos e já estamos conformados? Há séculos atrás, com muito menos, tinha gente tentando mudar o mundo. Aí a gente fica se achando adulto. Porque perdeu os ideais, a intensidade, o certo exagero em tudo, e aquela coisa nervosa de defender tudo que acreditávamos mesmo que nos achassem apenas ingênuos. A gente se acha adulto de começar a acreditar que amigos não são tudo, que é errado passarmos o final de semana na praia porque tem gente que tá estudando e que vai ser melhor que a gente. Ô! Que produto mais vagabundo esse, viu? E o público-alvo não tem nome não. Cultos, intelectuais, frustrados, contentes, dramáticos, velhos, novos, e a maior crueldade: até crianças. Eles nos vendem o que não precisamos querer ser, mas achamos que devemos. Estou prestes a pôr um anúncio no jornal: "PROCURA-SE: Ser humano. Características: perceptividade sobre o absurdo de não ter que escolher entre estudar para a prova ou ir na festa de aniversário da sua mãe.". Tô vendo todo mundo murchar, devagar, sem perceber. Tô vendo todo mundo sendo engolido. Tô vendo todo mundo zumbi. Fizeram a gente pensar que não podemos mais ter tempo, fizeram a gente se sentir culpado até por achar tempo pra pensar. E aí, a gente não pensa mais no absurdo do que eles fizeram. E o que a gente faz é só reproduzir o que eles nos entregam. Nós compramos nossa escravidão; e somos nosso próprio castigo.

