
Quando criança, Joãozinho adorava quebras-cabeças, e ganhara, especialmente, dois jogos que marcaram, de temas bastante extremos; enquanto um parecia ser de preto opaco, o outro exalava um branco brilhante. Entretanto, por alguma razão, por mais diferentes que eles parecessem, Joãozinho guardava dentro de seus intestinos, em seu pulmão, e em todo seu coração que eles poderiam se juntar, formando um quebra-cabeça diferente, mas não menos harmônico em sua imagem final. Nessa sua busca em enquadrar as peças de um quebra-cabeças noutro, Joãozinho foi juntando um e outro sonhadores que, como ele, acreditavam que peças diferentes poderiam totalizar um bom resultado final. Porém, aos poucos, com o passar dos anos, e das experiências com seus múltiplos e complexos quebra-cabeças, Joãozinho foi entendendo que as coisas não eram bem assim, e havia peças que só podiam ser encaixadas em seus respectivos jogos e contextos. Também com o tempo ele pôde filtrar, selecionar, e optar os quebra-cabeças que mais eram do seu agrado, e, inevitavelmente, um tipo específico manteve-se seu favorito. Mas, como sempre acontece com essas coisas que marcam sem que entendamos por que, o outro quebra-cabeças, esquecido, e escondido; distante e inacessível parecia agora simples de resolver, e mesclar-se com aquele que tornara-se seu favorito. Por algum bom tempo Joãozinho e seus amigos se irritavam com o quebra-cabeças, e guardavam-no novamente no alto do armário, a fim de manterem-se longes daquela complicação; mas sempre renovavam as esperanças daquela fusão deslumbrada. Até que um dia Joãozinho cansou. Colocou de vez o quebra-cabeças no baú, e só o colocou lá, para quando falasse sobre ele com alguém ter a prova de todo o enredamento envolvido no jogo. Só para poder abrir o baú ás vezes e admitir que já foi fraco o suficiente para desistir, e ver de perto o motivo de sua desistência – talvez pensar no que tenha dado errado. Era difícil dizer. O fato foi que ainda mais dias, e meses, e anos passaram, até que um dos amigos de Joãozinho que estivera voltando de viagem, pediu para montarem o quebra-cabeças preferido deles da infância. No entanto, parecia que algo tinha mudado no jogo, algumas peças faltavam, e outras pareciam estar sobrando.Como se alguém ou alguma coisa por um motivo desconhecido misturara as peças para confundir ou convencer. E então tudo que se via, eram peças soltas, ou ligeiramente encaixadas, e muita coisa fora de lugar. E o outro amigo de Joãozinho concordou com a idéia de que aquelas peças deviam ter sido guardadas no jogo errado, pois pareciam pertencer a uma caixa totalmente distinta. Surpreendentemente, o amigo de Joãozinho não desistiu, e continuou a buscar um lugar para encaixar as peças exclusas. De repente estava lá, o amigo do Joãozinho tentando encaixar a peça que pertencia ao jogo evitado àquele. Joãozinho sentiu-se traindo seu melhor quebra-cabeças, porque no fundo ele sabia que as peças eram de outro lugar, de outro jogo; um jogo pelo qual ele lutara, no qual ele investira sua persistência e boa vontade, mas que o frustrara imensamente a ponto de afastá-lo de vez de suas brincadeiras. Joãozinho sabia disso. Melhor: sentia isso. E é verdade que ás vezes a gente sente até o que não existe, mas quando a gente sente, pelo menos pra gente, começa a existir imediatamente. E em um segundo, Joãozinho já não sabia dizer quais peças pertenciam a qual quebra-cabeça, porque todos pareceram diferentes, estavam de algum jeito parecendo congruentes. Quem sabe Joãzinho é que se enganara? Quem sabe aqueles dois quebra-cabeças eram semelhantes e ficavam bem juntos? Quem sabe, a peça fora do quebra-cabeças fosse ele? Porque é verdade que ás vezes a gente sente até o que não existe, mas quando a gente sente, pelo menos pra gente, começa a existir imediatamente.