Tomamos rumos incertos, é certo. Mas chega a ser engraçado como as medidas que tomamos a fim de evitar isso tornam-se inúteis. O esquecimento á que foi submetido o blog prova isso. Seremos futuras profissionais de direito, odontologia, letras e comunicação social, tenho certeza. Mas fico a imaginar de que maneira isso irá se concretizar. Quer dizer, seremos casadas infelizes? Solteiras malucas? Felizes ao menos? Decadentes casadas?! Esposas amáveis e mães exemplares?! Moraremos no fundo de quintal de uma casa qualquer, ou em modernos apartamentos? E seremos felizes exatamente onde? Exatamente como?! Principalmente: estaremos ainda ligadas, e num café reunidor daremos risadas de tais questionamentos feitos quando jovens? Tento, sempre que posso, desviar do obstáculo da realidade, e vou pegando atalhos, acreditando na cruel ilusão da praticidade. Porque os atalhos, nesse caso, são os mais complicados caminhos, eles nos fazem perder parte da identidade de nossos rumos. Hoje, depois de um franco, justo, e honrado confronto com a Verdade, fiquei com a deliciosa sensação de que se o mundo acabasse hoje, eu terminaria meus dias da melhor maneira possível: acreditando que minha vida não foi em vão.Ora. Nasci, fui uma criança discretamente malandra, estrategista, fria e calculista até para a minha idade.Comece a falar mais tarde do que desejavam meus pais, afinal, fui servida, boa parte de minha infância, de saborosos pratos de silêncio, preparados amorosamente por minha irmã de coração. Começa por aí minha vida regida por valores bem diferentes do resto de boa parte das crianças. Muito ligada à minha casa, e à minha família, relutei em sucumbir aos sorrisos modestos das professoras de minha primeira escolinha – para isso, tive que ser enganada. Venci meu primeiro desafio. Me adaptei bem após algumas semanas de sucessivos choros em frente á porta da tal escola. Fiz boas amizades, e prossegui num caminho que hoje estimo muito ter seguido. Lá, aprendi que existiam opiniões e formas de ver a vida diferentes das minhas, e que elas não podiam ser manipuladas como eu costumava TENTAR fazer com meus pais (e que eles me faziam acreditar que conseguia). E foi meu primeiro grande êxtase: aprender a lidar com elas. Antes mesmo de saber que tal característica deveria existir em todos, passei a ser tolerante. Bruno, portador de algo que o fazia ser chamado de “especial”, bem como Débora tinha olhos puxados, pele muito branca, e enorme dificuldade em falar. Foi lá também que aprendi a ser algo que descobri, mais tarde, chamar-se lealdade. Victor Hugo, lembro-me bem, era recíproco à lealdade que eu lhe depositava, mostrava isso quando, mesmo com problema em uma das pernas, buscava balas com um bicho gigante que aparecia todo ano, na mesma época – eu não ia muito com a cara daquilo que era uma ampliação desproporcional e assustadora do coelho Pepe, mascote de nossa turma. Mas os anos não suportaram a falta de estrutura que o humilde e maravilhoso mundo do jardim de infância tinha a me oferecer. Eu teria que sair. Teria que mudar de segunda casa. Acabei parando num lugar 31645135 vezes maior ao que eu estava acostumada, e mal sabia o que me esperava do outro lado. Um ano se passou. Tive que me acostumar á professora mais rude, e aos colegas, que não eram doces como os antigos. Agora eu não tinha mais o parquinho ou a areia para me acolherem nos intervalos, aliás, agora nós tínhamos um único intervalo. Agora eu só tinha uma parede com azulejos mal-sucedidos cor-de-rosa, onde me falou que eu poderia ficar durante os recreios quando perguntei à uma moça chamada “Servente”. Era um lugar terrível esse outro lado do colégio. Havia gente de todos os tamanhos, elas corriam desgovernadas, batiam-se, gritavam, algumas, maiores, xingavam-se de coisas terríveis (“merda” pra mim, era algo inadmissível, e eles extrapolavam esse inocente limite). As coisas ainda iriam piorar. E muito. Os meninos já não se misturavam com as meninas, e as meninas eram muito chatas, então criei um grupo, o qual, por muito tempo, teve apenas uma integrante, e eu não preciso dizer quem. Meus recreios evoluíram, passaram a ser na biblioteca, na companhia dos mais diversos livros, devorados por uma coisa que eu descobri que amava: conhecer. As bibliotecárias me adoravam, e eram também boas colegas, já que eu, apesar de desleixada e moleca, era sempre cordial, educada e sensata. Mais tarde, as meninas passaram a adotar, precocemente, atitudes de mulheres, justificando-as com o aumento precário de seus peitos, e os garotos passaram a tratar com hostilidade qualquer outra diferente dessas. E eu era diferente. Mas não sabia que isso era bom. Chorava sempre que lembrava que não tinha amigos. E um dia finalmente entendi que haveria apenas uma forma de ser aceita: não precisar de aceitação nenhuma pra me dar bem. Não corria mais atrás de equipes para fazer os trabalhos grupais, afinal eu já tinha o meu, apenas o tinha esquecido. E eram sempre bons trabalhos, fazia-os com afinco e dedicação, e recebia sempre boas notas. As horas na biblioteca também passaram a ser muito úteis, me estimularam mais do que se eu ficasse sentada observando os garotos maiores como a maioria das meninas faziam. Ainda sem muitos amigos, já sem sentir falta deles, entrei pro coral. Lá iniciei minha busca pelos desafios de relação. Mesmo havendo muitos garotos de “boa índole” e muitas meninas “bonitas e simpáticas” conforme descreviam as coordenadoras hipócritas daquela época, acabei me interessando justamente pelo garoto de sobrancelhas raspadas. Currículo curioso, parece que tinha sido expulso de dois ou três colégios, por portar um pequeno estilete (o mesmo que lhe criou um problema nos fios da sobrancelha). Contudo, ele parecia ser mais enriquecedor que aquelas crianças chatas que compunham o coral. Mas ele não serviu-me pra mais nada. Depois surgiu um outro, as professoras não sabiam o que fazer, ele chegava atrasado, respondia malcriadamente, batia nas meninas – que tinham nojo de tocar em suas camisetas suadas e sujas de terra e saliva – odiava os meninos. Tinha o olhar e expressões constantemente selvagens. Topou jogar bolinha-de-gude comigo. Ele era legal. Mas não chegávamos a ser amigos, brigávamos sempre, e comemorávamos fazendo coisas que gostávamos (correr desatinadamente e cair era preferência). Ouvia também minha mãe comentando que conversara com uma avó que tinha uma neta “complicada”, bem, já havia ouvido alguns rumores. Finalmente a conheci. Tinha atitudes de menino, muito mais que eu, andava como menino, movia os ombros como menino. Sempre que passava, abriam-lhe caminho, ou, sabiam, teriam que conhecer a fúria daqueles punhos branquelos, e a ferocidade penetrante dos olhos azuis. Tal personalidade arredia lhe tornava compatível ao meu grupo, foi, sem saber, inserida nele. Chamava-se Layla. Nos encontrávamos ás vezes, e ela abaixava a cabeça como que um cumprimento. Eu sorria. Não que tivéssemos amizade, mas eu era uma das poucas pessoas que não lhe temia, mas a respeitava e entendia. E isso bastava para que nos déssemos bem. Meus trabalhos e minhas necessidades de conhecimento iam melhorando e se aperfeiçoando cada vez mais. Já tinha uma boa formação sobre o que eram garotos e como deveriam ser tratados: seres da pior espécie que deveriam ser tratados como tais. Enquanto as meninas despejavam lágrimas por algum garoto imaturo do terceiro ano, eu escrevia bobagens em meu caderno e aprendia com elas como agir com eles. Cresci, emagreci, tornei-me menos dentuça e menos desleixada, mais madura talvez, e ainda que eu não fosse adorada por quase ninguém, eu era admirada, mesmo que secretamente, por muitas. Só que as pessoas preferem não captar mudanças, porque esse é um processo que exige-lhes muito, e eu sabia que seria sempre a menina gordinha, dentuça e desengonçada dos anos anteriores, e mesmo tendo certeza que isso não me afetaria, achei que haveria um outro lugar para exibir minha nova fase. Mudei de colégio. Esperava o pior possível dele. Melhor, tive ótimas surpresas. Minha nova turma se mostrou disposta a me enquadrar onde eu quisesse, prontos pra tirar quaisquer dúvidas. Os garotos então...Me deu ainda mais alegria quando avistei um rosto conhecido, disfarçado com a mascara da antipatia, mas ainda assim conhecido. Os mesmos olhos azuis, menos vorazes dessa vez, cabelos um pouco mais louros, gestos mais femininos. Fiquei feliz com a possibilidade de retomar uma velha amizade que havia ficado sem ponto final. Sequer olhou-me a cara. Odiei-a ainda mais quando negou-me olhar a resolução do exercício de física para entende-lo melhor. Ouvi, mais tarde, coisas terríveis a seu respeito. Acabei num grupinho de meninas que era mais um antro de falsidade, onde só havia uma pessoa com sensibilidade o bastante para execra-lo: chamava-se Sara. Foi minha amiga, confidente, companheira, parceira. Estimo-a muito, até hoje, mas quase não nos falamos. Lembro-me também quando passei por outra menina conhecida do outro colégio, não lembrava-lhe o nome, e me contentei em dar-lhe apenas um sorriso ao vê-la passar por mim no fim do intervalo, jogando a caixinha de achocolatado na lixeira do corredor. Sei la, talvez fosse envergonhada ou não se lembrara de mim, mas não riu de volta. Tinha atitudes modestas, gestos curtos, falava pouco, observava muito. Não me recordo exatamente como nos aproximamos, mas achei engraçado ir tanto com a cara de alguém que tinha o mesmo nome de minha prima. Ela amava cálculos, eu amava português, e a gente foi se entendendo. Não conseguia guardar lugar na frente, e cuidei para que conseguisse sentar mais próxima do professor, perto de mim e da Adri, uma menina meio maluca que acabei conhecendo também. Quando eu vi, não conseguia passar um recreio sem trocar algumas palavras com ela. Depois acabamos, ela, Adri, e eu, nos aproximando da Layla. Bom, mas meu amadurecimento foi só aí. Ainda achava que homens eram a escória da humanidade, que deviam ser usados, esquecidos, quiçá pisados. Continuava saindo, conseguindo quem eu queria nas festas, acordando feliz no dia seguinte. Até que conheci um garoto. Ficamos juntos por algum tempo. Erramos, deveríamos ter ficado como amigos. Experiência que terminou da forma mais desastrosa possível: agora mesmo é que eu ia avacalhar. Passei muito tempo sem ligar pra nada, fechada. Depois, passou. E o verão chegou em boa hora. Conheci pessoas maravilhosas. E fui amadurecendo minhas idéias sobre fidelidade. Agora eu não era só a menina mimada que não ia ligar pra ninguém, eu era mais que isso. Eu era quem tinha entendido que não importasse o que me fizessem, ia dar sempre o meu melhor. Tudo isso aprendi em 18 anos, e pode não ser muito, vai saber, mas pra mim é o suficiente: tenho amigas verdadeiras, um namorado que com todos os defeitos gosta de mim e me respeita, uma família excepcional, e valores inestimáveis. Se eu quiser muito mais que isso algum dia, me ensinem novamente, porque já esqueci que é só o que eu preciso pra ser verdadeiramente feliz.
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